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Programa de índio
05/10/2008
 
"O Brazil não conhece o Brasil", cantava Elis Regina e, quando o assunto é índio, é só trocar o z pelo s que a canção de Aldir Blanc continua valendo. Por preconceito, por ignorância ou por ambos, o Brasil dos não-índios costuma não distinguir entre as 220 etnias diferentes que habitam o território nacional, acha que é terra demais para pouca gente e que, se veste bermuda e tem TV na maloca, deixou de ser índio. Para quem tem todos esses clichês na cabeça - mas alguma curiosidade sobre a vida desses outros brasileiros - acaba de surgir uma iniciativa que desfaz os mitos e o enquadramento chato de folclore tão comum ao tema: uma coleção de filmes sobre povos indígenas feita por eles mesmos. É um belo programa de índio.

Imagine algumas cenas: três meninos panarás traçam planos em volta da fogueira. Querem fazer umas bordunas e matar os txucarramães, inimigos históricos de sua gente. Juntam uma turma e entram na floresta. Eles se pintam, os maiores cortam os cabelos dos pequenos de um jeito esquisito, depois se dividem em dois grupos e brincam de lutar. Igualzinho qualquer criança de cidade. A diferença está no cenário, na língua que falam, no humor e no jeito que a brincadeira acaba, com os indiozinhos sujos e suados se atirando nas águas de um rio. "Depois do Ovo, a Guerra" é o nome do premiado documentário de 15 minutos de Komoi Panará.

O Marika e suas duas mulheres, personagens do mito de origem do pequi em "Cheiro de Pequi", dos cuicuros: olhar original lançado para dentro da aldeia, decorrente da intimidade especial que existe entre quem roda a cena e quem a protagoniza.

No Acre, entre os huni kuis, a viagem é diferente. Na aldeia de São Joaquim, no rio Jordão, os mais velhos procuram ensinar os cantos aos jovens e a conversa passa pelo "cipó" - a ayahuasca - e a "miração", como eles chamam a vertigem que sentem ao beber o extrato da planta. Prosseguem o ritual vestindo bermuda e camiseta, relógio e muitos colares de sementes. Falam sobre sons da floresta e grilos encantados. Alguém vai buscar uma erva para diminuir a "tonteira" da bebida. "Me dê uma boa 'miração', não me leve longe", diz a letra de um dos cantos entoado ao som de chocalhos. Em dado momento, um deles questiona: "Nossos cantos vêm dos nossos pais. Quem é o dono do canto?" Mas alguém lembra que quem ensinou o canto foi a jibóia. "Então a jibóia é a dona?" Dá pra ver que esse pessoal é diferente. Os grafismos são outros, as vestes podem ser longas túnicas. Na cabeça, alguns levam penas, mas outros usam faixas ou tiaras bem estruturadas.

Nada a ver com os cuicuros, um povo que mora na região dos formadores do rio Xingu, tem população de umas 500 pessoas e se espalha por três aldeias. Em "O Dia em Que a Lua Menstruou" ocorre um eclipse. De repente, dizem, tudo muda. As mulheres passam polvilho no rosto; os homens, carvão. Uma índia conta que no eclipse é quando o tatu vira arraia e a cobra, peixe. "Todos se transformam. Na cidade, pode ser atropelado por um carro", continua. De manhã, as mulheres jogam fora peixes e restos de comida enquanto um homem "acorda" todas as coisas que estão em casa. Bate nas panelas, no fogão. "Ih, bati e ela acordou", ri, ao perceber que ligou a TV com seus tapas. Só para deixar claro: aqui, ninguém tomou ayahuasca.

No projeto Vídeo nas Aldeias, os índios estão ao mesmo tempo na frente e atrás das câmeras. As histórias são divertidas, as narrativas envolventes, a atmosfera é de intimidade. "O trabalho envolve a idéia dos videomakers indígenas que existe há algum tempo em países industrializados como o Canadá e que recupera o patrimônio cultural desses povos", diz o antropólogo André Villas-Bôas, coordenador do Programa Xingu do Instituto Socioambiental, o ISA, entidade com longa trajetória junto aos índios brasileiros. "Ninguém faz isso no Brasil de forma tão sistemática, como uma rede de relações com diferentes etnias, bastante abrangente e com continuidade como o grupo do Vincent", elogia Villas-Bôas.

Vincent Carelli é o documentarista que aos 20 anos já morava com os xicrins do Pará, militou no indigenismo alternativo na década de 1970, trabalhou na Funai e em ONGs com atuação no tema e acabou fundando o Vídeo nas Aldeias. "Naquela época eu nem pensava que no futuro formaríamos cineastas indígenas", revela. "Eu fazia, mostrava, ficava no leva-e-traz entre os povos. Mas não ensinava", continua. "As lideranças entendiam imediatamente o potencial do vídeo."

A formação dos cineastas indígenas (ou "realizadores", como eles dizem) foi um desdobramento que surgiu anos depois. Em 1997 juntou-se ao grupo do Vídeo nas Aldeias a documentarista Mari Correa e o projeto deu uma guinada. Mari, que viveu 20 anos na França, tinha experiência anterior no Arquipélago da Nova Caledônia, na Oceania, com os Kanaks. "Ali havia um hiato grande entre a geração mais antiga e a juventude. O vídeo fez com que se reestabelecesse esse diálogo que estava rompido. Eu tinha muita vontade de fazer isso no Brasil também", conta Mari.

Foi então que ela começou a dar oficinas do gênero também na Amazônia e o projeto atingiu sua vocação. "Os índios são filmados sempre do lado de fora, assim como quem mora na favela, sempre refletindo a imagem do exterior", informa a documentarista. "Este projeto é uma forma de eles se representarem."

É um olhar original que eles lançam para dentro da aldeia. A intimidade especial que existe entre quem roda a cena e quem a protagoniza não escapa aos que entendem do assunto. "Essa observação atenciosa dos gestos das pessoas, esse respeito à situação em que elas se encontram é algo que me parece ter sumido totalmente, ou quase, do documentário brasileiro", diz o crítico de cinema e roteirista Jean-Claude Bernardet, num texto delicado no site do Vídeo nas Aldeias, hoje uma ONG com sede em Olinda.

As fundações americanas Guggenheim, MacArthur, Rockefeller e Ford foram as primeiras a apoiar o projeto que se firmou com a ajuda regular e contínua da cooperação internacional da Noruega. Vídeo nas Aldeias tornou-se um Ponto de Cultura, no desenho do Ministério da Cultura (Minc), e em 2007 virou um "Pontão".

O Minc também apóia finaceiramente a iniciativa. São projetos caros. Com R$ 70 mil, por exemplo, dá para produzir duas oficinas e um filme, em média, além de deixar equipamentos nas aldeias. Já foram realizadas oficinas em cerca de 30 povos. Há um acervo com mais de 3 mil horas de imagens e uma coleção de mais de 70 filmes, dos quais 26 de autoria indígena.

Os documentários ganharam uma série de prêmios nacionais e internacionais. A idéia, agora, com os DVDs que começam a ser vendidos na Livraria Cultura e na locadora 2001 Vídeo, em São Paulo, é sair do público de festivais e ganhar outros espectadores. A legendagem poliglota indica que os filmes podem avançar pelas fronteiras.

Há outra ponta em gestação. Com patrocínio da Petrobras, cinco mil caixas de DVDs serão distribuídas em escolas da rede pública quando a série tiver mais dois povos, o que deve ocorrer nos próximos meses. "Há uma carência enorme de informações sobre índios que sejam atraentes", afirma Carelli, que sonha com o dia em que os vídeos indígenas ganhem as salas de aula.

"As comunidades indígenas estão submetidas a processos brutais de mudança", escreve ele em texto no site da ONG. "Creio que o verdadeiro dilema está em saber em que direção pode acontecer essa mudança. Os índios vão se transformar em mendigos ou vão se integrar economicamente de alguma forma?", questiona, exibindo os desafios da temática.

"Acho este projeto maravilhoso. A cultura indígena já é imagética, o índio entende a câmera", diz o cineasta Renato Barbieri, autor de documentários como "Atlântico Negro - na Rota dos Orixás". Ele sugere: "Gostaria agora que virassem a câmera e colocassem seu olhar crítico sobre a cultura ocidental. Queria que filmassem a gente."
 
Por Daniela Chiaretti, de Manaus
Valor Econômico, ano 9, Nº416, 03/10/2008
 
Fotos: Vincent Carelli
 
Clique na foto para abrir.
 
 

25/10

 

Martírio na Mostra Internacional de Cinema de SP

 MARTÍRIO, filme sobre a pacífica e obstinada insurgência dos índios guarani-kaiowá para a recuperação de suas terras sagradas será exibido na 40a Mostra Internacional de Cinema / São Paulo International Film Festival
Confira a agenda de Martírio - Filme na mostra:
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2
25/10/16 - 15:50 - Sessão: 476 (Terça)
CINE CAIXA BELAS ARTES Sl 1 Vila Lobos
29/10/16 - 15:40 - Sessão: 791 (Sábado)
http://40.mostra.org/br/filme/8903-MARTIRIO
#Martírio #Filme #GuaraniKaiowa #VídeonasAldeias #SP
 

03/09

 

O BRASIL DOS ÍNDIOS: UM ARQUIVO ABERTO

Na comemoração dos trinta anos de sua trajetória na 32 º Bienal de São Paulo, o Vídeo nas Aldeias abre pela primeira vez seu arquivo de imagens, apresentando ao público uma amostra da imensa diversidade dos povos indígenas no Brasil, de sua riqueza cultural e espiritual. Registradas na intimidade das aldeias, nos acampamentos de resistência, em manifestações nas ruas dos grandes centros urbanos, essas imagens revelam um Brasil profundo, tão atual quanto desconhecido. São imagens dos nossos tempos, que (re)situam os índios no contemporâneo, trazendo à tona uma pluralidade de mundos, de visões e de formas distintas de ocupar e pertencer à terra.
32º Bienal de São Paulo
INCERTEZA VIVA
7 setembro a 11 dezembro 2016

Baixe aqui o folheto que acompanha a obra, com informações sobre os vídeos, ano de produção, seus contextos de filmagens, créditos e lista de colaboradores.





 

14/03

 

Lançamento da coleção

A Cosac Naify, Vídeo nas Aldeias e Amoreira convidam para tarde de lançamento da Coleção Um dia na Aldeia, de Rita Carelli, Ana Carvalho e Mariana Zanetti, com oficinas, exibição de filmes, exposição de objetos indígenas e presença especial do cineasta indígena Kumaré Ikpengno dia 28 de março, sábado, das 14 h às 18 H na rua dos Macunis, 510, Alto de Pinheiros (tel 30325346).
A Cosac Naify lança, em parceria com o Vídeo nas Aldeias e patrocínio da Petrobrás, através do programa Petrobras Cultural, a coleção Um Dia na Aldeia, que traz um olhar autêntico e contemporâneo sobre diferentes povos indígenas no Brasil ao possibilitar que eles mesmos contem suas histórias e mostrem suas imagens através dos dvds que acompanham cada livro.
Assista aos filmes na nossa página no youtube.
A proposta ao desmistificar algumas imagens preconcebidas que temos dos povos indígenas e mostrar às crianças um pouquinho da vida de alguns desses povos. A cada título, o leitor conhece um pouco mais dos costumes atuais e antigos de um povo indígena Brasil afora: Wajãpipi (Amapa e Para¡), Ikpeng (Mato Grosso) e Panara (Mato Grosso e Para). Entender como vivem, onde moram, o que comem, que língua falam, do que brincam, ou ainda quais são suas histórias.